31 de Jan de 2008

blue / azul


não esperas
desesperas.
outros cantos
devaneios
desvairados
viagens
no tempo
na cidade
cruzamentos
semáforos
passagens
liberdade.



30 de Jan de 2008

bluish grey / azul acinzentado


sentiria
talvez pudor
em te perder
não fosse ser
o tempo
ou o destino
ou o vento
meu amigo
a te querer.




29 de Jan de 2008

gold / dourado



e sempre que não vemos
é porque não queremos ver
porque não sabemos querer
porque não vemos que sabemos.

28 de Jan de 2008

blue / azul


madrugada fria
esplendorosa
de sirenes longínquas
prolongada carícia das vagas
no cais lavado pela espuma
ecos de conversas perdidas
adormecidas na bruma
e distante
no horizonte
uma breve linha de luz.


27 de Jan de 2008

white / branco

cinco meses depois de interpor recurso hierárquico na sequência do concurso para professor titular, conheço a resposta. on-line, evidentemente. indeferido.
a justificação, de fino recorte jurídico, assenta na situação de equiparação a bolseira, em que nunca estive. mesmo que tal tivesse escapado, num momento de crash neuronal, à jurista de serviço, o documento final, ao transcrever a minha reclamação, não deixaria margem para dúvidas. como não há lugar a reclamação desta decisão, quero aqui cumprimentar a jurista p. mesquita, a directora dos serviços jurídicos, susana castanheira lopes e o director geral, jorge sarmento morais, pela forma expedita, imaginativa e lisonjeira com que despacharam o assunto.

light ochre / ocre luminoso


à noite as pedras pensam.
as pedras das calçadas,
onde as há.
as pedras das paredes,
roubadas ao esplendor da cal.
pensam no tempo
pensam no sol e na sombra
pensam na noite e no amor.
e nos homens.


pensam nos homens
como mulheres,
e como mulheres adormecem
ao som dos seus passos
e do seu calor.


26 de Jan de 2008

bistre / bistre


muito haverá a dizer sobre o quadro inteligente, mas eu, galinha tonta pouco dada a estes cacarejos informáticos, fico-me, para já, nos procedimentos preliminares.
primeira etapa - preencher três formulários de requisição: para a sala de audio visuais, o quadro inteligente, o portátil do departamento e levantar as chaves das duas portas;
segunda etapa - no centro de recursos, levantar o portátil, um saco com os cabos, as canetas inteligentes, o comando da traquitana do tecto; ah, e a chave de fendas para apertar a ficha não sei quê ao portátil;
terceira etapa: carregar a tralha toda, mais a mala e o livro de ponto escada acima, abrir as portas (uma delas, evidentemente, abre ao contrário) num equilíbrio ameaçador e patético;
quarta etapa - largar o carrego e começar a montar o estaminé – retirar as fichas do vídeo e da televisão da extensão e ligar as do portátil e do quadro, ligar a a maquineta do tecto, pôr a carregar as canetas, ligar o quadro ao portátil, apertar os parafusos da ficha, e ligar ambos;
quinta etapa - refazer tudo pelo menos duas vezes, porque algures a ordem deste universo cabalístico foi alterada e apesar das luzinhas variadas a piscar alegremente a coisa não quer acontecer;
sexta etapa - a turba ignara, excitada com as promessas do primeiro ministro na televisão e os comentários desdenhosos dos amigos, está pronta para a sessão de efeitos. está fora de questão defraudá-los neste terreno pantanoso que são as aprendizagens actuais. o pior é que nesta fase dos acontecimentos tenho um crash neuronal e varrem-se-me da memória, irremediavelmente, as instruções para as etapas seguintes, amavelmente explicadas por um companheiro de lides.

acho que vou ensaiar tudo outra vez, com música e passos de dança. eu bem percebo que começa a tornar-se esquisito ainda não ter abrilhantado o meu magistério com uma sessão no quadro inteligente.

25 de Jan de 2008

green / verde


é noite
quando chego à rua
e descubro a cidade adormecida
é noite

quando entro em casa
e a minha voz se torna

a tua
e entre cada escuridão consentida
é o dia que se esfuma
envergonhado
em cada hora nua
em cada instante desvendado.



24 de Jan de 2008

orange / cor de laranja



hoje o sol esperava por mim à porta e não soube o que fazer.
entre sombras e brumas, encandeada pela lua, não sabia amanhecer.

23 de Jan de 2008

blue / azul


vi o sol ontem à noite
no rasto de uma canção
que podia ser sido tua.
um sol plácido e frio,

assombrado pela lua,
perdido no rumor
das estrelas sobre o rio.



22 de Jan de 2008

grey / cinzento


de noite a lua brilha luminosa e branca no céu azul muito escuro. de dia o sol brilha quente, mas distante, depois de sacudir a bruma do céu muito azul. mas faltam cores. faltam as cores quentes da terra e das gentes.

21 de Jan de 2008

green / verde


ganhar o dia, de surpresa e apesar do nevoeiro:
às minhas ameaças sobre as terríveis coisas que aconteceriam se não prestassem atenção à aula, comenta, para o lado, um dos meus especiais (aqueles que a rodrigues e os seus capangas vão privar de apoios com a nova legislação) : a setôra não mete medo, mete alegria.

Vandyck brown / castanho Van Dyck



não tenho tempo
agora
porque o tempo
parou
outra vez,

como uma legenda
a preto e branco
num velho filme mudo,
uma frase inesperada
coroada de arabescos
de luz.

não tenho tempo
agora.
por isso fecho a porta
ou janela
não sei bem,
a contragosto
em contraluz.

20 de Jan de 2008

greenish blue / azul esverdeado



o caminho do flanco
até ao ombro
é o mais longo
e demorado
na primeira vez.

talvez porque
depois
não mais o tempo das horas
nem o peso das palavras
nem mais nada realmente
ou tudo talvez.





19 de Jan de 2008

red / vermelho



até porque os homens errados são os que realmente apetecem. os que quase sempre acontecem. os que verdadeiramente nunca o são.

18 de Jan de 2008

blue / azul


uma coisa levezinha e saltitante, para combater o stress pós-traumático de uma incursão dentária. e para começar bem o fim de semana.

ultramarine / azul ultramar


no amor, como na morte, não há traição. só na vida é que esta corrompe e despedaça.

17 de Jan de 2008

bluish green / verde azulado


reunião de departamento. pirâmide de cretinices ministeriais em forma de papel, troca de meiles, movimentações de penes. resistiremos. enquanto houver bolo de maçã e vodka laranja...

royal blue / azul royal



adeus. adeus porquê
se adeus nunca foi despedida
mas partida,
abandono.

16 de Jan de 2008

pink / cor de rosa


esqueço coisas pequenas
como datas,
às vezes
moradas.

mas não abraços
nem risadas,
nem o desenho da voz
contra a parede,
nem as palavras
no papel,
nem a voz
mesmo velada,
inesperada.


15 de Jan de 2008

red / vermelho


quando me levanto ainda de noite, quase sempre amaldiçoo o destino ou este karma difícil que se me colou à pele, como uma carícia inevitável e irresistível. depois, já na estrada junto ao mar, quando a noite se despede, pesarosa e trocista, sei que é para mim que o dia se desvenda sobre o rio, em mil cambiantes de azul.

14 de Jan de 2008

white / branco




hoje, inesperada e inexplicavelmente, duas das minhas destrambelhadas mais militantes entraram na sala, dirigiram-se à mesa e sentaram-se. desde setembro que persistiam em deambular pela sala como fantasmas, depois de entrarem, perseguidas pelas minhas intimações, invectivas, ameaças, ironias. hoje entraram e sentaram-se. êxtase místico. e de tal transcendência, que me atrevo a acreditar que o meu destrambelhado-mor consiga também proporcionar-me outro arroubo semelhante. um dia...

brown / castanho



descobertas agasalhadas de inverno, sem chuva mas com frio.

13 de Jan de 2008

pale yellow / amarelo pálido


alembrança


desesperada
tristeza conformada
enganada
cada dia.
triste

ruína embaraçada
que se esconde
em desespero
sob a chuva
fria .
vigilante
iluminada
na rua deserta
de sons.
pobres paredes
vergastadas
pelo vento e pelo tempo,
vazias de gritos e risos
abandonadas de vozes,
entregues às gaivotas
e aos temporais.

12 de Jan de 2008

scarlet / escarlate


fim de semana de saias. Evas. e Liliths.

11 de Jan de 2008

blue / azul


amanhecer azul
de nuvens escuras e pesadas,

vozes afogadas no horizonte
como trovoadas longínquas,

uma suposição de sol
sobre o rio e as falésias,

e uma canção
há muito esquecida
entre as mãos.

10 de Jan de 2008

cores em inglês



quando se fala do primeiro ministro, ultimamente causa-me náuseas ter que dizer sócrates. sobretudo quando se anda às voltas com a Ática, o Peloponeso, a Jónia. e o azul luminoso da Grécia Antiga, nestes dias cinzentos que só hoje o sol timidamente coloriu.



lemon yellow / amarelo limão



a Ética (da responsabilidade) invocada pelo primeiro ministro, a propósito do Tratado/ Constituição europeus, devia fazer parte do mesmo plano de estudos que o Inglês Técnico da sua edificante licenciatura, e certamente também inspirou o secretário de Estado da Solidariedade Social, com o pagamento faseado dos retroactivos aos reformados (entretando alterado), o ministro do Ambiente, na aprovação da plataforma logística em leito de cheia, ou o ministro da Administração Interna, na alienação do património prisional.



9 de Jan de 2008

brown / castanho

reabilitação cardíaca


8 de Jan de 2008

gold / dourado



nesse verão de ouro onde estás, o inverno é uma memória magoada. um sobressalto de chuva miudinha, uma ventania insatisfeita, um arrepio de manhãs enregeladas. se ficares, prende essas memórias no jardim, como bandeiras, entre arbustos e flores. assim eu ficarei mais um tempo, um tempo de inverno no teu verão dourado.

7 de Jan de 2008

orange / cor de laranja


não são os homens que nos partem o coração. somos nós mesmas que o fazemos.

5 de Jan de 2008

grey / cinzento


fim de semana com calças. para homens de faz de conta.

4 de Jan de 2008

black / preto

pequenina idade das trevas?

red / vermelho


do outro lado da rua há um baldio. um declive coberto por mato e algumas pequenas hortas, descuidadas. faz as vezes do jardim cimentado em campo de jogos pelo poder local. o calor e o vento (libertos das barreiras de betão) soltam nuvens de poeira que atravessam os carreiros desenhados por inúmeras passadas, e que se elevam sobre a rua num grito desesperado de terra sepultada. o calor, depois a chuva, criam córregos de águas turbulentas nos caminhos e a lama invade as hortas e escorre sobre a rua distraída.
o baldio está ali e nem o vemos. quando o virmos mesmo é porque já não estará. será tarde demais.

3 de Jan de 2008

pale yellow / amarelo luminoso



é inverno
agora
de repente
quando parecia que era tempo
da primavera chegar.

mas não choveu bastante
nem fez frio suficiente
para a luz querer voltar.

é inverno e noite
e no fundo destes dias
não há brilho
nem calor
mas premonições de sol
de fogo adormecido
por queimar.

é inverno
e inverno a começar
entre festejos e esperas
entre dias e noites
casas e
salas cheias
ruas por atravessar

que seja inverno então
entre labaredas líquidas
e desvairadas
e promessas molhadas

de ter fim
de terminar.



2 de Jan de 2008

golden ochre / ocre dourado


como cantas eu não sei
porque o que apetece é chorar.
mas cantas
e como cantas eu não sei
de outra maneira
senão cantar.

cantas baixinho
docemente
o tempo todo
mas às vezes calas-te
e outras vezes és brutal.

mas cantas
e como cantas eu não sei
de outra maneira
senão cantar.

cantas ao vento
teimosamente
quase sempre
mas às vezes tropeças
e outras vezes fazes mal.

mas cantas
e como cantas eu não sei
de outra maneira
senão cantar.


1 de Jan de 2008

light malachite green / verde malaquite claro


enter 2008

ver melhor, ouvir melhor, gostar melhor, esquecer melhor

black & white / preto e branco