29 de Fev de 2008

red / vermelho


nada disso importa
nada disso existe.

são luzes que inventamos
quando se fecha a porta
quando a dor persiste.
nada disso é real
ou relevante,
nada disso fica
nada disso é importante.
são palavras encontradas
ao acaso,
esboços de vidas,
letras coloridas,
canções esquecidas
nestas mãos a preto e branco.

28 de Fev de 2008

night blue / azul noite

Campo de trigo com corvos, Vincent Van Gogh


porque me enamoro, não sei. como não sei como sabem as cigarras o sol do meio dia, quando cantam. ou como sabem as ondas do mar o esplendor da lua, na iminência da maré.
porque me enamoro, não sei. mas pouco importa. pouco importa saber se são as cores da pele ou o sabor do corpo. pouco importa saber se é a música das mãos ou o timbre da voz.
pouco importa, porque quando me enamoro não sei.

gold / dourado



'este tempo que vivemos aqui é já outra coisa'. nelks

tempo de manhãs contrariadas e noites contrafeitas. de tardes soturnas e madrugadas luminosas. e risos. e palavras. em torrentes poderosas ou como gritos de nuvens desgarradas no grande azul. mas aqui, não em outro sítio. mesmo sendo outra coisa. mesmo sem saber o que seja.

27 de Fev de 2008

blue / azul


nesta praia
deserta e abandonada
onde as ondas dançam
ao ritmo do vento
e do sol
e a espuma que as coroa
é um manto de palavras
sussurradas
e íntimas,
estou quieta
estou perdida

estou em paz.

purple violet / violeta púrpura


pois
talvez
de repente
sem saber
tropeçar
e cair.

sentir
a aspereza
quente
da terra
o silvo
do vento
e impotente
desistir.
das voltas
meias voltas,
dos dias
quase iguais,
do tempo
indiferente
e querer
outra
qualquer
coisa
que seja
talvez
viver
realmente.

26 de Fev de 2008

green / verde


demência ou delírio, mas a cores, como sonhos que esquecemos de esquecer ao acordar. demência ou delírio, mas com flores, fantásticas e improváveis, que evitamos nomear. demência ou delírio, mas com esperança, verde e urgente, de querer, de inventar.

25 de Fev de 2008

gold / dourado


perfiladas
as palavras aguardam
o fim da tarde,
talvez a noite,
e sonham-se
na frieza metálica
do papel.

aguardam que a mão
as tome como suas
e
ecoam como vozes
sobre o corpo
como tatuagens
indeléveis
mas esquecidas.



24 de Fev de 2008

green / verde


os minutos que demora
essa canção
o relógio parado
que não marca
o nosso tempo
ecos de passos
sombras de gestos
caminhos percorridos
há muito
iluminadas janelas
distantes
na tarde
crepúsculo de emoções
e vozes.

pousada sobre a mesa
a caneta que escreveu
o teu nome.

23 de Fev de 2008

black & white / preto e branco




hoje é dia das minhas babes. uma regressa, a outra está quase de partida. que falta de quando eram pequeninas e minhas e vestiam vestidos e gostavam do lanche que lhes fazia...

22 de Fev de 2008

steel grey / cinzento de aço


pouco importa que o apoio escolar seja em pequeno número e reduzido (não chega sequer para todos os manuais, cuja venda engorda as editoras); ou que vivam em condições degradantes; ou que sejam vítimas de abandono ou violência.

pouco importa que os espaços se degradem ou que a demência economicista transforme crianças em coisas, escolas em armazéns, aprendizagens em falácias.

quando o destino é cruel e a vida madrasta, nada funciona: nem segurança social, nem protecção de menores, nem redes de solidariedade.

o importante é que os números escondam o que a realidade expõe.

21 de Fev de 2008

silver / prateado



ontem à tarde, o sol e a lua namoraram-se sobre o mar. hoje à noite, ela veste-se de fogo para ele por nossa causa .

bluish grey / azul acinzentado



nevoeiro ou neblina? neste mundo especial, que os olhos vêem cinza e as máquinas pintam de azul, não há géneros nem cores, só as vozes são reais.

20 de Fev de 2008

light ochre / ocre luminoso


dá-me
um nome
um tom
um refrão.
uma forma
de ser eu
feita de letras
e cores
e som
que possa também
ser canção.

19 de Fev de 2008

grey / cinzento


ontem tudo era água, até a ganância dos homens. a estrada, em vez de rumar à cidade, procurava, como os céus, em torrentes imparáveis, o caminho do mar.

hoje, sobre as feridas rasgadas na terra e sobre os destroços de várias vidas, paira uma bruma pesarosa e maternal que amanhã estará esquecida.

18 de Fev de 2008

white / branco


foi o sol hoje
e não a chuva
que enfrentou
o mar revolto
e acalmou
a maresia.
foi o sol
hoje
e não a lua
que libertou
ao vento solto
a frágil luz do dia.

silver grey / cinzento prateado


chuva ou bruma
não sei
pousando
sobre os vultos
líquidos
desfocados,
sobre as ruas
inundadas
de súbitos brilhos
e sombras,

murmúrios de água

nos passeios,
pequeninas
cascatas
derramadas
das varandas
abandonadas
e tristes.



17 de Fev de 2008

white / branco


as árvores
procuram a terra
quando chove

numa entrega branca
de flores
que tremem
mansamente
junto ao chão.

16 de Fev de 2008

bluish pale / azul pálido



neste
canto do mundo
os dias
correm iguais,
como sempre.
às vezes breves,
mecânicos
banais.
outras demorados,
intensos
irreais.


15 de Fev de 2008

red / vermelho

a ministra: traumas de adolescência revisitados.

14 de Fev de 2008

blue / azul


todos os nomes que te dei
entre nós
são feitos de sombras
e cores adormecidas.
e como sombras
entorpecidas
escondem no corpo
as cores esquecidas da voz


white / branco


ontem encontrei a sandra jessica à porta da escola. estava de visita às amigas e veio cobrar-me, livre das restrições hierárquicas, os dois beijos repenicados da tribo. que não, que não voltava à escola. e explicou-me: com os dois palmos de cara e a adequada massa corporal, decentemente distribuída, tenciona seguir carreira no mundo audiovisual. (talvez mais visual que audio, que as poucas aulas de música que condescendeu em agraciar com a sua colorida e produzida figura, não permitem grandes expectativas. pelo menos canoras...). as amigas miram-na, embevecidas, e embora (ainda) não possuam a plástica e o ânimo voluntarioso da carla jessica, esforçam-se por imitá-la, com um absentismo muito razoável e investimento estético de monta. de saída, lembrei-me a tempo da minha avaliação algures, e chamei-a à parte, entre a passadeira e o candeeiro dos fumadores. acenei-lhe com a promessa, caso voltasse, de um teste acessível e cheio de ilustrações, ao alcance das suas inúmeras qualidades, mas não pareceu comover-se. por fim, generosa e iluminada, ainda me disse, enquanto atirava os longos cabelos por cima do ombro, "saia daqui, setôra, qu'isto nã interessa nem aos prés-tóricos". não dispondo, nem por sombras, dos predicados, da frescura e da energia da carla jessica, fui-me embora. mas volto amanhã. espero que o arrumador de viaturas possa testemunhar os meus esforços, embora parcialmente inglórios, contra o abandono escolar.

green / verde


metas de sucesso. indicadores de medida. depois do sucesso a cem por cento, a excelência a cem por cento. a utopia é como manda a lei: feita de números.

13 de Fev de 2008

blue/ azul


esquecido

estrépito de ondas

que se desmoronam

em espuma

e gritos invisíveis de conchas.


12 de Fev de 2008

brown / castanho


agenda extra para os próximos trinta dias: conselhos de turma intercalares; reuniões de departamento; reuniões de directores de turma; reuniões de áreas não disciplinares; conselhos de turma de final de período;
leituras obrigatórias: novo estatuto do aluno; novo regime de avaliação dos professores; novo regime de gestão escolar; novo regime de ensino especial.

11 de Fev de 2008

red / vermelho

Male Female, Jackson Pollock

há feridas
que são meias verdades.
fantasmas do corpo
que não sangram
mas não saram.
marcas do tempo,
tatuagens,
eternidades.

10 de Fev de 2008

black & white / branco & preto

joão bentes
in memoriam


fúnebres e sublimes: quando a morte não se diz, ouve-se.

9 de Fev de 2008

brown / castanho


subitamente, o sol irrompe no outro lado do horizonte num clarão de luz e cor e o temporal sucumbe ao calor fraterno da terra

8 de Fev de 2008

red / vermelho

os dias estão maiores. mas ainda é noite quando amanhece.

7 de Fev de 2008

silver grey / cinzento prateado


chá das cinco às três. ou como os rituais descrevem a calmaria de forma bem mais avassaladora do que os temporais.

6 de Fev de 2008

cobalt blue / azul cobalto


escreve,
na areia lisa da praia,
entre conchas e limos,
uma invocação curta.
pode ser
que nas tardes imensas de Lagos,
quando sopra a nortada,
os gritos das gaivotas,
urgentes e nítidos,
convoquem mares longínquos,
marés antigas,

rumor de ervas e segredos
nas dunas,
esplendor líquido dos dias
vividos em vão.

5 de Fev de 2008

blue / azul



momentos de luz que o betão ainda não devorou.








4 de Fev de 2008

steel grey / cinzento de aço


estilhaço de céu que o mar esqueceu na areia, à espera que as marés-vivas o devolvam às estrelas.

1 de Fev de 2008

bordeaux red / cor de vinho



a sul. na direcção do horizonte, onde o amanhecer hoje aconteceu num clarão de luz e cor, a tentar resistir ao manto de nuvens escuras e ameaçadoras sobre a cidade e o rio.