fosses tu mar, seria ilha afogada nos teus braços
.
não sei
se o que dizes
é ausência,
irrelevância
ou desamor.
sei
que não sou eu
a ouvir-te
como sei
que são minhas
as palavras
que não dizes,
as ausências
que escreves
nestes dias,
essa ternura metálica
que aceito,
horrorizada.
e sabendo embora
que amanhã
a razão me deixará
à mercê dessas palavras,
porque são inteiras
e cortantes,
hoje não importa
porque cantam
enquanto dançam
na água,
ao meu alcance,
imensas, líquidas,
importantes.
Lagos
Avencasprocurei entre os lençóis
as palavras que escrevi
no teu corpo
de madrugada
talvez estivessem caídas
na berma do teu sono
ou talvez afinal
não tivesse escrito nada
sei que dormias
e a sombra do teu riso
ainda riscava de luz
o corrimão da escada
e era verão
e eu era outra
mais estouvada
não fora esse cansaço mútuo
essa vertigem
de sonhar estar acordada
e teria encontrado outras palavras
debruçadas sobre a cama
apaixonadas
.
Bairro Alto, Lisboa
onde,
em que recanto
desenhado
entre luz e sombras,
decides o curso
desta hora
enfeitiçada?
onde,
em que momento
da cidade
és dia
noite
madrugada?
onde,
em que esquina
iluminada
acordas estrelas
cometas
galáxias
o horizonte inteiro
a alvorada?
amei a tua voz
no escuro
porque a julgava
perdida,
mas não,
afinal estava perto
escondida no futuro
bate o coração à flor da pele
surdamente no côncavo da mão
canção de sombras
que derrama lentamente
palavras líquidas sobre o chão.
e cantaria essa canção feita de penas
com violência e amor e devoção
não fora a nitidez do teu sorriso triste
e a certeza da luz na voz da noite
neste tempo sombrio e sem razão

escrevo-te,
a mão desliza no papel, sobre a velha
mesa de tampo escuro e gasto.
e que escrevo eu, como desenho as palavras
(sobressalto)
a inesperada cor do inverno?
ainda não sei, ainda não sei o que escrever
o que dizer em palavras acertadas.
sei que estou cansada, sei que insisto
em procurar a luz
em cada madrugada.
sei que há sombras no meu riso
mas sei também que da raiva
nasce uma nova caminhada.
escrevo-te, inteira e dividida.
porque escrevo?
porque contigo não consigo estar calada
vontade esquecida
de partir
atrás do sol,
abandonar esta fraqueza
que se arrasta,
esta tristeza enraivecida,
este desconsolo
colado à pele,
esta revolta surda
afogada
em desalento.
.