30 de Abr de 2009

sepia / sépia



hoje não escrevo.

tu estás debruçado sobre a tarde

beijando-a nos meus braços

intenso e magoado.


hoje não escrevo.

invoco a noite em plena claridade

e sigo-lhe os traços

à procura das palavras por dizer,

aprisionadas pela morte.


hoje não escrevo.

tu estás na esquina desta frase

onde te sei inteiro

onde o coração bate mais forte.


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29 de Abr de 2009

black & white/ preto e branco



e quando a palavra que buscas é nome?

quando é simultaneamente corpo e razão?


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28 de Abr de 2009

green / verde

Ponta da Piedade


escreve verde

que o verde tarda

escreve verde

como o dia escreve

madrugada


escreve verde

escreve acordada

escreve verde

como se fosse a noite

alvorada


escreve verde

verde da mágoa lavada

verde como é verde

o calor que o sol guarda

no verde das folhas

da tarde iluminada.


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27 de Abr de 2009

black & white/ preto e branco


gosto de te ouvir falar

só por falar,

sem ter que pensar

ou responder coisas banais.


gosto de te ouvir

por te ouvir

sem saber se vou lembrar

ou esquecer

sem me importar demais


gosto de te ouvir falar

só por falar

sem prever se te vou seguir

ou perder

sempre que te vais


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26 de Abr de 2009

red / vermelho


Both Sides Now


Bows and flows of angel hair and ice cream castles in the air
And feather canyons everywhere, i've looked at clouds that way.
But now they only block the sun, they rain and snow on everyone.
So many things i would have done but clouds got in my way.

I've looked at clouds from both sides now,
From up and down, and still somehow
It's cloud illusions i recall.
I really don't know clouds at all.

Moons and junes and ferris wheels, the dizzy dancing way you feel
As every fairy tale comes real; oh i've looked at love that way.
But now it's just another show. you leave 'em laughing when you go
And if you care, don't let them know, no, don't give yourself away.

I've looked at love from both sides now,
From give and take, and still somehow
It's love's illusions i recall.
Oh I really don't know love at all.

Tears and fears and feeling proud to say "i love you" right out loud,
Dreams and schemes and circus crowds, i've looked at life that way.
But now old friends are acting strange, they shake their heads, they say
I've changed.Well,
Something's lost but something's gained in living every day.

I've looked at life from both sides now,
From win and lose, and still somehow
It's life's illusions i recall.
I really don't know life at all.


Joni Mitchell

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25 de Abr de 2009

red / vermelho


Venham mais cinco

Venham mais cinco
Duma assentada
Que eu pago já
Do branco ou tinto
Se o velho estica
Eu fico por cá

Se tem má pinta
Dá-lhe um apito
E põe-no a andar
De espada à cinta
Já crê que é rei
D'Aquém e D'Além Mar

Não me obriguem
A vir para a rua
Gritar
Que é já tempo
D'embalar a trouxa
E zarpar

A gente ajuda
Havemos de ser mais
Eu bem sei
Mas há quem queira
Deitar abaixo
O que eu levantei

A bucha é dura
Mais dura é a razão
Que a sustem
Só nesta rusga
Não há lugar
Pr'òs filhos da mãe


Não me obriguem
A vir para a rua
Gritar
Que é já tempo
D'embalar a trouxa
E zarpar


Bem me diziam
Bem me avisavam
Como era a lei
Na minha terra
Quem trepa
No coqueiro
É o rei

A bucha é dura
Mais dura é a razão
Que a sustem
Só nesta rusga
Não há lugar
Pr'òs filhos da mãe

José Afonso

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24 de Abr de 2009

red / vermelho

são cravos, senhora. vermelhos. onde estavas tu, naquela véspera de revolução?

eu estava a dormir, pois claro, que no dia seguinte tinha aulas às oito e meia da manhã. e lá estaria, pontualmente, sentada à espera da professora que não vinha. e o delegado de turma à porta, a dizer para dentro, depois de confirmar que todos os outros estavam à porta das salas, ao longo do corredor: não saíu nenhum professor da sala dos professores! sim, que eles estavam lá, bem os tínhamos visto entrar de manhã.
e o carlos, agarrado ao mini rádio de pilhas (como hoje fazemos ao telemóvel) a dizer, delirante mas assustado: é um golpe de estado. as forças armadas.
e eu a pensar . é aquele golpe das Caldas que falhou. é hoje.
poucas coisas foram tão fortes e avassaladoras como essa sensação de estar a viver uma revolução. uma revolução como as que havíamos lido e sonhado nos livros,
liberdade. o fim do medo. o fim da pide. o fim da repressão, do anacronismo e da injustiça de vivermos num passado triste e pobre e beato. morto.

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23 de Abr de 2009

black & white/ preto e branco

Princesa prometida

Há um véu no meu olhar
Que a brilhar dá que pensar
Nos mistérios da beleza
Espelho meu que aconteceu
Do que é teu e do que é meu
Já não temos a certeza

A moldura deste espelho
Espelho feito de oiro velho
Tem os traços de uma flor
Muitas vezes foi partido
Prometido e proibido
Aos encantos do amor

Espelho meu diz a verdade
Da idade da saudade
À mulher envelhecida
Segue em frente na memória
Mata a glória dessa história
Da princesa prometida


Aldina Duarte, ao espelho (voz?) em que todas nos conseguimos ver, primeiro princesas depois rainhas. rainhas de nós, que é a única possível verdadeira nobreza.

ontem à noite, empolgante, na culturgest.
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22 de Abr de 2009

blue / azul

Vila do Bispo

pedra gerada na terra, afeiçoada e erguida ao vento pelos homens, silenciosa memória do fundo dos tempos. haverá quem se comova com com a beleza sofisticada das catedrais ou com a inteligência de complexas construções. eu rendo-me a esta solidão petrificada, a este horizonte misteriosamente humanizado.

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21 de Abr de 2009

black white / preto e branco


tenho nas mãos o teu segredo e é um segredo de pedra e espanto. porque não foste apenas artesão mas namorado, porque não amaste apenas a beleza mas também a verdade.
tenho nas mãos o teu segredo que o tempo não matou mas quebrou, como se quebra a ilusão e a vontade mas permanece, intacto, o esplendor do sentimento partilhado.
tenho nas mãos este segredo tão antigo e no coração este amor tão bem guardado.

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20 de Abr de 2009

purplish red / vermelho púrpura

roselhas de barlavento

a primavera está tresloucada? a minha mais nova veio de férias à procura de sol e calor e afinal foi encontrá-los de regresso às paragens brumosas da velha Albion...

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19 de Abr de 2009

black & white / preto e branco



E por que haverias de querer minha alma
na tua cama?
Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas
obscenas, porque era assim que gostávamos.
Mas não menti gozo prazer lascívia
nem omiti que a alma está além, buscando
aquele Outro. E te repito: por que haverias
de querer minha alma na tua cama?
Jubila-te da memória de coitos e de acertos.
Ou tenta-me de novo. Obriga-me.


Hilda Hilst

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18 de Abr de 2009

red / vermelho

Alvor


DEZ CHAMAMENTOS AO AMIGO

Se te pareço nocturna e imperfeita
olha-me de novo. Porque esta noite
olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
e era como se a água
desejasse

escapar de sua casa que é o rio
e deslizando apenas, nem tocar a margem.

Te olhei. E há tanto tempo
entendo que sou terra. Há tanto tempo
espero
que o teu corpo de água mais fraterno
se estenda sobre o meu. Pastor e nauta

Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.



Hilda Hilst
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greyish black / cinzento preto

Meia Praia


a noite é um pano de cena que descobre a nossa comédia de enganos e ilusões. noite em que inscrevemos a imensidão do escuro e o esplendor da lua, os enredos desta ficção de sermos nós e de não sermos ninguém e sermos toda a gente.

noite, escuridão do silêncio, rasto de estrelas, nós sim, eu e tu, e ambos a ficção de sermos alguém, este momento de estrelas no corpo, na construção do amor, impressão, veleidade de um riso há muito esquecido nesta pressa de sermos gente, pessoas, frases significativas, coisas vivas, canções, suposições de genialidades várias e circunscritas a esta verdade objectiva de estarmos aqui.

a noite é um cenário de aguarela, de faz de conta que sim, somos nós, poeira cósmica algures em palpitações de porque não, porque sim, são muitos anos de canções versos colhidos em livros folheados em angústias de falta de densidade e porque não, agora, meu amor, diz-me que sim. que sim , que estavas lá quando a rua era de gente e homens e mulheres cantavam uma canção que aprendiam em gestos de sangue, resistência, sabedoria, zeca, desculpa-me eu sempre estive aqui, perto de ti, uma parte desta humanidade de angústia e verdade de sermos bichos neste planeta à deriva, de sermos bichos e sermos gente e procurarmos um sentido nesta viagem feita de rotas e e caminhos e vontade de sermos maiores que sei lá, e sermos gente, gente e ter voz e ser canção e ser poesia que é o mesmo que não ser nada e ser tudo e saber que séculos muitos depois ainda procuramos o sentido de ser mais que apenas um momento de ser alguém, neste instante que será um amanhã se conseguirmos que seja mais que a promessa de qualquer coisa que não seja apenas o estar hoje aqui.

17 de Abr de 2009

blue / azul



desde a primeira hora

que te quis.

e tudo

o que não disse

tudo

o que não fiz

calaria

sem hesitar

agora


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16 de Abr de 2009

ruby red / vermelho rubi



amanhã

podes esquecer-te das palavras

ou mesmo do caminho percorrido

mas ontem

ontem

nos meus lábios

foste inteiro

evidente

com sentido


amanhã

podes ter-te esquecido das palavras

ou até do percurso consentido

mas ontem

ontem nos meus braços

escreveste o mesmo tempo

verdadeiro

ardente

assumido.


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15 de Abr de 2009

blue / azul

Torre das Águias


há um silêncio
insuportável
na dor.
um silêncio de vozes
que vibra e queima
e gela e arrepia.
um silêncio
em que teimam
as cores da vida

da poesia e
do amor

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14 de Abr de 2009

black & white / branco e preto



foi nas tuas mãos que me perdi.
nas tuas mãos grandes e fortes,
maiores que a dimensão da distância
e mais seguras que a força da certeza.

foi nas tuas mãos que me perdi.
nas tuas mãos pousadas sobre a mesa,
desenhando no silêncio da mesa
a sombra do meu corpo junto a ti.

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13 de Abr de 2009

gold / dourado

Ria de Alvor

uma palavra do nada
inesperada
sobre a tarde

uma palavra flor que arde
feita grito de cor
na sombria
claridade

deste instante de amor


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sky blue / azul lavanda

Praia do Camilo

o teu silêncio é uma escarpa inacessível onde ecoam os gritos das gaivotas e se desfaz o fragor do mar.

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12 de Abr de 2009

white / branco



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11 de Abr de 2009

sapphire blue / azul safira

Meia Praia


há palavras que são feitas de nuvens e vento e o próprio sol recusa intervir porque têm luz própria. são palavras misteriosas e intraduzíveis, cujo sentido dura o tempo que perdura o nosso abandono e loucura. porque falam a língua do tempo das pedras que hoje são areia, porque falam a língua do tempo das lágrimas que hoje são o mar.

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bordeaux red/ cor de vinho



é entre o azul do céu e os azuis do mar que as flores das estevas dançam no vento que corre entre alecrim, alfazema, urzes e roselhas, do litoral para o barrocal, sob o sol primaveril. enquanto dançam, cantam. cantam delicadas canções de amor, alheias às nuvens e aos homens. mesmo àqueles que ainda ouvem o seu canto, mesmo àqueles que se embriagam no seu aroma forte nas tardes estivais.
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10 de Abr de 2009

gold / dourado

como em qualquer praia algarvia, na Salema há bares horríveis, ingleses e misturadoras de cimento a trabalhar. mas também há casas que a pobreza ou o orgulho não deixaram alterar, barcos de pesca e... gatos. embora eu seja mais canina que felina, não resisti a este senhor das areias, que interrompeu os seus afazeres, intrigado com as minhas actividades. aqui fica para o j. monge, poeta e homem de gatos.


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9 de Abr de 2009

blue / azul


Praia da Salema


é aqui a finis terra mediterrânica. onde azul do mar prende os homens à terra, frente ao oceano. onde ecoa a poesia da Sophia e o silêncio é de sol e cal e cheio de aromas que a terra oferece à maresia. aqui, onde persistem os velhos ofícios do sal e das marés. aqui, onde paira a sombra do betão e da morte.

8 de Abr de 2009

scarlet / escarlate


este ano a primavera é das estevas. mas por ser das estevas, esta papoila é preciosa. porque sangrou na sombra do talude à beira da estrada para Odiáxere, onde buldozers e camiões esventraram o barrocal, arrancaram urzes, estevas, amendoeiras e figueiras, derramando ganância e ódio sobre a ria de Alvor.


7 de Abr de 2009

indigo blue / azul indigo

Meia Praia

há alturas em que a voz se cala. é quando as palavras regressam ao silêncio inicial. porque se disse tudo. porque tudo ficou por dizer.

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6 de Abr de 2009

blue / azul

Lagos


somos irmã(o)s cardeais: procuramos o rumo das estrelas nas alegrias e dores e encontramos o mesmo inverosímil arrepio cósmico no calor da tarde.


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5 de Abr de 2009

blue / azul

Lagos

Sobre o linho

Desse céu de camponeses trouxe o azul, o azul limpo do linho, o azul branco. Aqui o estendo, onde a noite é mais dura (exactamente como outrora na ribeira mulheres antiquíssimas estendiam a roupa pelas pedras da manhã) e nele me deito. Pudesse eu, como elas, agora dormir tranquilo, a tarefa cumprida.
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4 de Abr de 2009

white / branco

a minha cerejeira


A UMA CEREJEIRA EM FLOR

Acordar, ser na manhã de abril
a brancura desta cerejeira;
arder das folhas à raiz,
dar versos ou florir desta maneira.

Abrir os braços, acolher nos ramos
o vento, a luz, ou o quer que seja;
sentir o tempo, fibra a fibra,
a tecer o coração de uma cereja


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3 de Abr de 2009

black & white / preto e branco


1º dia de férias da Páscoa depois da diarreia avaliativo-burocrática, telefonema da secretaria: ó professora, o seu BI caducou, é favor vir cá para actualizar os dados. caducou? diabo, caducou mesmo. é a primeira vez que sou apanhada na clandestinidade.
muito bem. pesquisa na net: renovação BI. informações desencontradas, Bilhete de Identidade ou Cartão do Cidadão, eis a questão. e lá vou, rumo ao Areeiro. mas antes, as fotos da praxe, já que os impressos não se podem descarregar (tem que se pagar e preencher in loco, evidentemente).
10:30 da manhã, inesperado espaço para arrumar a carroça, mesmo em frente. (estranho...) moeda ao toxicodependente e senha 69 (lembrei-me logo do mota amaral), vai no 23. not bad. três capítulos do jogo do mundo e dez cidadãos depois na fila das informações e impressos, chego ao balcão.
impressos para renovação, fashavor.
qual é a urgência, pergunta-me a velhota com ar solícito.
urgência, nenhuma, respondo-lhe surpreendida.
então não.
não?
não. aqui é só urgências, se não é urgência tem que fazer o cartão do cidadão.
ah. pois seja. bem me parecia que estava a ser fácil demais. devidamente esclarecida pela propaganda do governo, percebo que adeus fotos, e logo estas em que estou tão jeitosinha, eu, de quem a objectiva nunca gosta!
sim, mas não é aqui, acrescenta a funcionária. e estica-me um papelinho com quatro endereços.
o mais perto é na Afonso Costa a seguir à Sigurança Social, no 41.
e lá vou eu. a Segurança Social é um edifício badalhoco dos anos 70, sem número de polícia, claro. resolvo entrar numa das portas e depois de um corredor manhoso, com várias voltas, atravancado por uma babel de gentes e cores, percebo que estou enganada.
é mais à frente, nas Olaias, no edifício dos serviços sociais da Câmara de Lisboa. ah, pois com certeza. tudo a ver
volto atrás, recupero a carroça, e sem GPS nem nada, dou com o sítio, arrumo no baldio esburacado e poeirento que faltou ajardinar e avanço para a modernice de vidro e madeira, que esconde os degradados prédios de habitação social e que dispensa identificação ou logos institucionais, certamente para não ferir o seu esplendor de vidraça (deve ser muito sustentável...).
senha 169 (perseguida pelo mota amaral, que nojo!), vai no 70. avanço para a a sala de espera e percebo porque é que está vazia: um diogo infante de cartão, em tamanho natural, sugere, com o sorriso espertalhão de quem fumou mas não travou, uma consulta de cessação tabágica. olho à volta e verifico que entre o átrio e o corredor existem mais três diogos infantes. não admira que, à porta, com ar sôfrego, esteja uma molhada em plena activação tabágica.
ao meio dia é chamado o 96 e mais cinco capítulos do cortázar e três mines depois (sim, o edifício dispõe de bar, tabacaria e loja para a 3ª idade, abençoada pela lídia franco, também em cartão e em tamanho natural), parece-me vislumbrar ao longe a isabel. começo a pensar se a mistura cidadania e cerveja não terá sido excessiva para os meus pobres neurónios enfraquecidsos, mas é mesmo ela. vem também ao cartão do cidadão.
mais reconfortada pela companhia e por umas quantas idas à rua (a isabel também não se comoveu com o diogo infante), chega a minha hora, quase às duas da tarde.
entorpecida pelas mines e pelo calor acondicionado da sala, lá enfrento a maquineta. tento sorrir, mas sou repreendida pela funcionária.
sem dentes, diz-me. coloco os dedos nas janelinhas e assino o papelucho (duas vezes, pois tropecei, não gosto de esferográficas) e quando o papel final é cuspido, reparo que fui defraudada em dois centímetros.
não pode ser. em cento e sessenta e quatro, dois centímetros não são de desprezar. e são meus, caramba. não tenciono imolá-los no altar das novas tecnologias! a régua, nas traseiras das maquinetas, dá-me razão. largo doze euros, coisa pouca para tanta emoção. a funcionária garante-me que me enviarão uma carta a avisar quando o meu multi cartão de cidadã estiver pronto. previsões de prazo, não têm. afinal a papeleta vai viajar pelos vários organismos envolvidos... até sinto um arrepio de puro prazer burocrata!
saio com uma folha A4 onde estão todos os meus dados e uma foto inacreditável que me será extremamente útil em manhãs de ressaca, que dobro cuidadosamente e tento enfiar, sem sucesso, no moleskine dos documentos.
beijo a isabel e despeço-me no exacto instante em que uma jovem família étnica protesta, com o volume no máximo, pela demora. ainda hesito (confesso) mas desisto. é muita cidadania para um dia que ainda vai a meio e que já me agraciou com esta espantosa conquista tecnológica que um dia terei nas mãos.

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2 de Abr de 2009

blue / azul



desenharei na terra,

sob o azul dos teus beijos,

um abraço verde vivo

que prenda o clamor do sol.


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1 de Abr de 2009

yellow / amarelo

O louco

dia oficioso dos embustes e dos tolos. mas os embustes não precisam de dia de culto e os tolos não o justificam.
as faltas dos alunos, por exemplo. as faltas de material, de atraso ou disciplinares já não são contabilizadas a não ser na avaliação. além disso, as penas de suspensão de frequência das aulas também não são contabilizadas como faltas de presença (enquanto que os tratamentos médicos são, embora "justificados"). quanto às faltas que são consideradas (justificadas ou não) e sujeitas a prova de "recuperação" (existindo ou não aproveitamento), quando ultrapassam o limite, é verdade que são "apagadas". está lá, no delirante e inacreditável estatuto do aluno, devidamente esclarecido por mails enviados pela tutela e, como agora é comum, nem sequer assinados (apesar de existirem assinaturas electrónicas...).
as faltas dos alunos diminuíram? mesmo assim não. pretender o contrário já nem releva da má fé ou falta de vista: é pura e descarada mentira.
neste país, ultimamente é sempre dia 1 de abril.
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