
1º dia de férias da Páscoa depois da diarreia avaliativo-burocrática, telefonema da secretaria: ó professora, o seu BI caducou, é favor vir cá para actualizar os dados. caducou? diabo, caducou mesmo. é a primeira vez que sou apanhada na clandestinidade.
muito bem. pesquisa na net: renovação BI. informações desencontradas, Bilhete de Identidade ou Cartão do Cidadão, eis a questão. e lá vou, rumo ao Areeiro. mas antes, as fotos da praxe, já que os impressos não se podem descarregar (tem que se pagar e preencher in loco, evidentemente).
10:30 da manhã, inesperado espaço para arrumar a carroça, mesmo em frente. (estranho...) moeda ao toxicodependente e senha 69 (lembrei-me logo do mota amaral), vai no 23. not bad. três capítulos do jogo do mundo e dez cidadãos depois na fila das informações e impressos, chego ao balcão.
impressos para renovação, fashavor.
qual é a urgência, pergunta-me a velhota com ar solícito.
urgência, nenhuma, respondo-lhe surpreendida.
então não.
não?
não. aqui é só urgências, se não é urgência tem que fazer o cartão do cidadão.
ah. pois seja. bem me parecia que estava a ser fácil demais. devidamente esclarecida pela propaganda do governo, percebo que adeus fotos, e logo estas em que estou tão jeitosinha, eu, de quem a objectiva nunca gosta!
sim, mas não é aqui, acrescenta a funcionária. e estica-me um papelinho com quatro endereços.
o mais perto é na Afonso Costa a seguir à Sigurança Social, no 41.
e lá vou eu. a Segurança Social é um edifício badalhoco dos anos 70, sem número de polícia, claro. resolvo entrar numa das portas e depois de um corredor manhoso, com várias voltas, atravancado por uma babel de gentes e cores, percebo que estou enganada.
é mais à frente, nas Olaias, no edifício dos serviços sociais da Câmara de Lisboa. ah, pois com certeza. tudo a ver
volto atrás, recupero a carroça, e sem GPS nem nada, dou com o sítio, arrumo no baldio esburacado e poeirento que faltou ajardinar e avanço para a modernice de vidro e madeira, que esconde os degradados prédios de habitação social e que dispensa identificação ou logos institucionais, certamente para não ferir o seu esplendor de vidraça (deve ser muito sustentável...).
senha 169 (perseguida pelo mota amaral, que nojo!), vai no 70. avanço para a a sala de espera e percebo porque é que está vazia: um diogo infante de cartão, em tamanho natural, sugere, com o sorriso espertalhão de quem fumou mas não travou, uma consulta de cessação tabágica. olho à volta e verifico que entre o átrio e o corredor existem mais três diogos infantes. não admira que, à porta, com ar sôfrego, esteja uma molhada em plena activação tabágica.
ao meio dia é chamado o 96 e mais cinco capítulos do cortázar e três mines depois (sim, o edifício dispõe de bar, tabacaria e loja para a 3ª idade, abençoada pela lídia franco, também em cartão e em tamanho natural), parece-me vislumbrar ao longe a isabel. começo a pensar se a mistura cidadania e cerveja não terá sido excessiva para os meus pobres neurónios enfraquecidsos, mas é mesmo ela. vem também ao cartão do cidadão.
mais reconfortada pela companhia e por umas quantas idas à rua (a isabel também não se comoveu com o diogo infante), chega a minha hora, quase às duas da tarde.
entorpecida pelas mines e pelo calor acondicionado da sala, lá enfrento a maquineta. tento sorrir, mas sou repreendida pela funcionária.
sem dentes, diz-me. coloco os dedos nas janelinhas e assino o papelucho (duas vezes, pois tropecei, não gosto de esferográficas) e quando o papel final é cuspido, reparo que fui defraudada em dois centímetros.
não pode ser. em cento e sessenta e quatro, dois centímetros não são de desprezar. e são meus, caramba. não tenciono imolá-los no altar das novas tecnologias! a régua, nas traseiras das maquinetas, dá-me razão. largo doze euros, coisa pouca para tanta emoção. a funcionária garante-me que me enviarão uma carta a avisar quando o meu multi cartão de cidadã estiver pronto. previsões de prazo, não têm. afinal a papeleta vai viajar pelos vários organismos envolvidos... até sinto um arrepio de puro prazer burocrata!
saio com uma folha A4 onde estão todos os meus dados e uma foto inacreditável que me será extremamente útil em manhãs de ressaca, que dobro cuidadosamente e tento enfiar, sem sucesso, no moleskine dos documentos.
beijo a isabel e despeço-me no exacto instante em que uma jovem família étnica protesta, com o volume no máximo, pela demora. ainda hesito (confesso) mas desisto. é muita cidadania para um dia que ainda vai a meio e que já me agraciou com esta espantosa conquista tecnológica que um dia terei nas mãos.
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