30 de Jun de 2009

yellow / amarelo



segue-se o número das matrículas. hoje e amanhã. o impresso preenchido, o registo confirmado, as fotos identificadas, o cartão de vacinas verificado, o termo de responsabilidade assinado, o clip e a mica para guardar tudo.
as despedidas
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os crápulas da 5 de outubro já anunciaram ao país o arranque do próximo ano lectivo, ainda este não terminou. os professores não estão colocados, coisa nunca vista. mas ninguém se escandaliza. é verão. a silly season exige outros protagonistas, outras tontices,
mais light.

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29 de Jun de 2009

green / verde

a minha macieira

ainda é cedo. as maçãs, verdes, esperam o verão escondido, o calor da tentação que fará delas o fruto preferido.

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gold / dourado

a minha ameixeira

o verão escondeu-se. e o que era solar e radiante em ti, também. persistem as ameixas, como pequenos sóis entre a folhagem e a chuva. persisto eu.

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28 de Jun de 2009

blue / azul

Nude male, Sabine Klement



não procures nas esquinas do teu corpo
o calor da minha mão
a noite acordou e eu esqueci-me
da irredutível solidão da tua sombra

não procures no silêncio do teu corpo
o sabor da minha voz
o dia adormeceu cansado de palavras

e eu perdi-me na mágoa de sermos nós

não procures na nudez do teu corpo
o caminho dos meus beijos

o nosso tempo acabou de madrugada

quando se sonham risos e desejos


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27 de Jun de 2009

green / verde


sou filha da cidade e do mau tempo

meu corpo de algas e trovões

nasceu numa manhã de sol e vento

embaraço de araucárias e limões


sou feita de falésias e ruas de cimento

vendavais de chuva e emoções

verde de terra viva e mar em movimento

vozes antigas transformadas em canções


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26 de Jun de 2009

yellow / amarelo


depois dos magalhães, as magalhonas. numa escola a cair da tripeça, onde se gela de frio no inverno e se destila de calor na primavera, em que as portas não fecham e as janelas não abrem, com uma tomada eléctrica por sala e vários fios a jorrar dos recém instalados projectores de vídeo, um quadro eléctrico que estoira quando em desespero se liga um aquecedor no inverno e que também desespera o piquete da edp, a boa notícia de final de ano lectivo:
não, não é o anúncio de eminente demolição e reconstrução (apesar das súplicas continuadas por obras urgentes) - são cento e tal computadeiras que chegam.
o facto de a escola não dispôr de rede (são os professores que pagam do seu bolso o acesso à rede, se querem utilizar os projectores de vídeo), nem sequer de espaços adequados (as cadeiras e mesas são um desafio ergonómico a adolescentes e adultos e responsáveis certamente por um acréscimo de infortúnios futuros na ortopedia), não desmoralizou o investimento nas novas tecnologias... nem vale a pena desencaixotá-las, empilhadas vão dar um jeitão para colocar mochilas, abafos e, quem sabe, assentos bem mais confortáveis do que as decrépitas cadeiras.

e pensar que aqui, ao virar da esquina está uma bela escola que vai ser reconstruída, mesmo sem ter sido tida nem achada e com obras feitas recentemente. tão recentemente que mesmo depois do anúncio da demolição prevista para o verão, insistiram em instalar por um par de meses os ditos projectores de vídeo em cada sala e por pouco, não fora a recusa irredutível dos responsáveis pela escola, a fibra óptica.

mistérios? não. é o ministério da educação.


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25 de Jun de 2009

black and white / preto e branco


nas tuas mãos fui mais que primavera. fiz a ronda das estações sem procurar a verdade na quimera que é estar à tua espera sem esperar de ti outras razões ...


24 de Jun de 2009

green / verde

Bairro Alto

ter um manjerico à janela e a janela estar aberta e saber que não és tu à minha descoberta.
ter um manjerico ao sol, e o sol a beijar-lhe a copa perfumada e saber que não és tu a minha madrugada.
ser manjerico o tempo de três festas e duas luas, noites mágicas e esquecimento, fogueiras na memória de outros verões e outras vidas, ruas perdidas no tempo em que não te conhecia.

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23 de Jun de 2009

black & white / preto e branco


reuniões de avaliação.

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22 de Jun de 2009

white / branco


já cá faltavam as vigilâncias de exames!


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21 de Jun de 2009

gold / dourado



ainda é inverno no teu peito.
o que fizeste à primavera?
onde escondeste o coração?
não me respondas contrafeito com o silêncio da escrita,
sonha esta noite com o clamor do verão.

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20 de Jun de 2009

green / verde

Bairro Alto

és quase jardim.

és quase verão.

és quase verso em mim,

mas quase tu, ainda não.


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19 de Jun de 2009

yellow / amarelo


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18 de Jun de 2009

black / preto

Bairro Alto


porque canto

se canto é porque trago a alma na garganta
porque sufoca no meu peito a alegria
porque na voz o corpo cansado se levanta
na razão maior da tua companhia

se canto é porque travo a mágoa na garganta
de noites de frio e manhãs de maresia
fantasmas de pedra que a voz quebranta
nos teus braços de sombra em cada dia

se canto é porque esqueço a faca na garganta
o metal da morte nas palavras da saudade
o negro da revolta que o sangue arranca
à mais funda memória da cidade.


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17 de Jun de 2009

red / vermelho


a minha princesa mais nova está de volta. às três graças reunidas já só falta comemorar o verão com o devido arraso às boas intenções (alimentares, claro)!
enquanto as gracinhas põem as fraternidades em dia nas salsas ondas, a autora arrasta a (des)graça às saunas lectivas, com temperaturas acima dos trinta graus, onde tenta mobilizar as desfalecidas criaturas para outros verões de há trezentos anos...


16 de Jun de 2009

grey / cinzento

Bairro Alto


a cidade vive no tempo, sobre o tempo e o tempo entranha-se-lhe na alma nas muitas vozes que a percorrem, vidas que deslizam em labirintos de betão ou despreocupadas avenidas. a cidade vive no tempo, razão e vontade dos homens, refém dos seus crimes e obsessões e redime-se nos lugares dos amantes, nos percursos namorados: a esquina iluminada, a esplanada banhada em silêncio, as escadarias onde flores despontam no empedrado, a paragem de eléctrico suspensa ao vento, o jardim adormecido entre bancos e arbustos, a praceta abandonada aos gatos...


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15 de Jun de 2009

pink / cor de rosa



ask me again next friday

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white / branco



só mais uma semana, pessoal, aguentem-se, vá lá, mais um esforçozito para eu também conseguir chegar a 6ª feira ainda pessoa ...

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14 de Jun de 2009

blue / azul

Cais do Sodré


que farei sem este mundo sem rosto e sem perguntas
onde ser apenas é um instante onde cada instante
vai cair no vazio no olvido de ter sido
sem esta onda e onde no final
o corpo e a sombra entre si se devoram
que farei sem este silêncio abismo de mumúrios
fremente furioso por amor por socorro
sem este céu que se ergue
sobre a poeira dos seus alicerces

que farei farei como ontem como hoje
olhando pelo postigo se não estiver sozinho
a vaguear e a girar longe de qualquer rumor
num espaço fantoche
sem voz entre as vozes
fechadas dentro de mim.

Samuel Beckett


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13 de Jun de 2009

red / vermelho



gostava que este amor morresse
e que chovesse sobre o cemitério
e sobre as ruas onde caminhando
eu choro aquela que julgou amar-me


Samuel Beckett


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12 de Jun de 2009

blue / azul

Estrada Marginal


às vezes, estrada
às vezes, palmeiras
às vezes, nuvens
às vezes, céu.

nem sempre
o dia nasce das sombras.
às vezes
nasce de caminhos interrompidos
ecos perdidos de vozes muito amadas


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11 de Jun de 2009

red / vermelho


Enquanto quis Fortuna que tivesse
Esperança de algum contentamento,
O gosto de um suave pensamento
Me fez que seus efeitos escrevesse.

Porém, temendo Amor que aviso desse
Minha escritura a algum juízo isento,
Escureceu-me o engenho co'o tormento,
Para que seus enganos não dissesse

Ó vós que Amor obriga a ser sujeitos
A diversas vontades! Quando lerdes
Num breve livro casos tão diversos,

Verdades puras são e não defeitos;
E sabei que, segundo o amor tiverdes,
Tereis o entendimento de meus versos.


Luís Vaz de Camões

10 de Jun de 2009

blue / azul

doca de Santos


Transforma-se o amador na cousa amada,
por virtude de muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.

Se nela está minha alma transformada,
Que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si somente pode descansar,
Pois consigo tal alma está liada.

Mas esta linda e pura semideia,
Que, como um acidente em seu sujeito,
Assim coa alma minha se conforma,

Está no pensamento como ideia;
[E] o vivo e puro amor de que sou feito,
Como a matéria simples busca a forma.


Luís Vaz de Camões

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9 de Jun de 2009

multicolor / multicor




as séries que me sentaram frente ao pequeno écrã,

primeiro a preto e branco e depois a cores

via edições pirata

8 de Jun de 2009

red / vermelho


neurónios em carregamento para a apoteose lectiva final: tentar arrumar um ano de cento e tal vidas em papéis e resistir a tranformá-las em estatísticas. tentar esquecer por uns dias os biltres e os dementes que, da cinco de outubro e da vinte e quadro de julho, tentam infernizar-nos os dias e adiar o futuro. mas grata pela escola em que estou e pelas pessoas com quem trabalho.
até já.


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7 de Jun de 2009

black / preto

Black suit III, Fabian Perez


Ayer te besé en los labios...


Ayer te besé en los labios.
Te besé en los labios. Densos,
rojos. Fue un beso tan corto,
que duró más que un relámpago,
que un milagro, más. El tiempo
después de dártelo
no lo quise para nada ya,
para nada
lo había querido antes.
Se empezó, se acabó en él.

Hoy estoy besando un beso;
estoy solo con mis labios.
Los pongo
no en tu boca, no, ya no...
-¿Adónde se me ha escapado?-.
Los pongo
en el beso que te di
ayer, en las bocas juntas
del beso que se besaron.
Y dura este beso más
que el silencio, que la luz.
Porque ya no es una carne
ni una boca lo que beso,
que se escapa, que me huye.
No.
Te estoy besando más lejos.



Pedro Salinas


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black / preto


voto, claro.
jamais esquecerei o que é não ter esse direito e o que custou para o poder exercer. ou não exercer.
voto, claro.

6 de Jun de 2009

blue / azul

Costa do Sol


¿Serás, amor,

un largo adiós que no se acaba?

Vivir, desde el principio, es separase.

En el primero encuentro

con la luz, con los labios,

el corazón percibe la congoja

de tener que estar ciego y sólo un dia.

Amor es el retraso milagroso

de su término mismo:

es prolongar el hecho mágico,

de que uno y uno sean dos, en contra

de la primera condena de la vida.

Con los besos,

con la pena y el pecho se conquistan,

en afanosas lides, entre gozos

parecidos a juegos,

días, tierras, espacios fabulosos,

a la gran disyunción que está esperando,

hermana de la muerte o muerte misma.

Cada beso perfecto aparta el tiempo,

le echa hacia atrás, ensancha el mundo breve

donde puede besarse todavía.

Ni en el llegar, ni en el hallazgo

tiene el amor su cima:

es en la resistencia a separarse

en donde se siente,

desnudo, altíssimo, temblando.

Y la separación no es el momento

cuando brazos, o voces,

se despiden con señas materiales.

Es de antes, de después.

Si se estrechan las manos, si se abraza,

nunca es para apartarse,

es porque el alma ciegamente siente

que la forma posible de estarmos juntos

es una despedida larga, clara.

Y que lo más seguro es el adiós.



Pedro Salinas


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5 de Jun de 2009

silver / prateado

Costa do Sol

também me escondo nas palavras quando chove. também procuro abrigo em frases para te conhecer. e marco parágrafos atrás de parágrafos para não atravessar a página, para não ter que te perder.

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4 de Jun de 2009

grey / cinzento

Costa do Sol


domingo passado, ao cair da tarde, começou a correr uma brisa fresca e soaram ao longe sirenes espantadas. pouco depois, a bruma do atlântico tinha cegado a praia de humidade e expulsado os corpos abandonados ao sol no areal.
ainda não é verão. e o inverno deste inverno não foi ainda encerrado.


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3 de Jun de 2009

black & white / preto e branco



apanhada no longo braço da lei, tive que enfrentar a admistração pública, para lhe tentar extorquir, de novo, o cartão de cidadão que não conseguira levantar em duas horas e meia de espera, aqui há umas semanas. preparei-me para uma estadia no deserto, devidamente equipada: uma turma de trabalhos, o noutebuque para rascunhar uns relatórios, caderneta para lançar classificações e uma garrafa de água.
à chegada, choque: a minha senha estava à distância de apenas dez cidadãos. aturdida, verifiquei que havia agora não duas, não três, mas quatro funcionárias no atendimento.

teria sido a ironia pró-governamental vertida no livro amarelo?
quarenta e cinco minutos depois e cinco trabalhos corrigidos, eis que sou chamada. activação de códigos, pins, alterações e explicações sucintas sobre a bondade da coisa, lá saio eu com os meus velhos cartões inutilizados e um novo multicartão chipado, sem vislumbre de cidadania, mas tresandando a novas tecnologias e oportunidades.

um must.

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2 de Jun de 2009

black / preto

S. João da Caparica


pouco importa

esta noite

o desenlace;

nem sempre

o silêncio

é boa companhia.

às vezes é mesmo o contrário

da memória,

a morte das palavras

em que prendi a alegria.


não sei amanhã

o desfecho desta história;

hoje,

é verdade a tua voz de luz

afogada em maresia;

hoje

é azul e luminosa

até chegar a madrugada,

até te perder

nas ruas ruidosas

do teu dia



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1 de Jun de 2009

blue / azul

praia de D. Ana

mal posso esperar. entre mim e o mar está um deserto de avaliações, classificações, relatórios, frenesim de últimas lições, relatórios de relatórios, reuniões, vigilâncias de exames. aqui e ali pequenos oásis de alegrias, pequenas grandes vitórias que me merecem o horizonte azul, a líquida razão de ser quem sou.

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